Criatividade, Interatividade e leitura: autoria e poética visual para a construção de conhecimentos. (Trecho)

Súbito. O telefone celular apita uma sonora e absurdamente concreta notificação. Que choque. O assobio cessa, a mão pára, o homem ocupado retorna.
Apesar de ter que abandonar o trabalho que amo, uma estranha euforia toma conta de mim e sigo – agora sim, eufórico, ansioso, orgulhoso, egoísta, lascivo – para atender ao toque digital. Do celular vou ao computador, do computador às três ou quatro plataformas de redes sociais que mantenho, profissionalmente, como artista visual, professor e escritor.
Em um minuto gastei uma hora. Clicando e rodando uma rodinha com o indicador. Os olhos frenéticos, seguindo uma trilha de links, em um excesso cansativo e encantador.
Como Carr discute, “Com as suas gratificações e conveniências, a tela do computador passa como um trator sobre nossas dúvidas. É nossa serva a um tal grau que seria grosseiro notar que também é nossa mestra.” Carr, 2011.
O autor sustenta que o uso das tecnologias de comunicação, especialmente a leitura não linear e os sistemas de redes sociais e blogs, mensagens eletrônicas e outros, são arquiteturas para a desatenção. Daí a superficialidade que dá nome a este trabalho que aqui cito.
“Se a lenta procissão de palavras através das páginas impressas refreava nosso anseio de sermos inundados por estímulos mentais, a net é indulgente em relação a eles. Ela nos devolve ao nosso estado natural de desatenção “de baixo para cima””. (A Geração Superficial, Carr, 2011).
Carr se refere ao estado primitivo da humanidade em que tínhamos de dar conta dos perigos e intempéries da natureza o tempo todo, em um estado de percepção “de baixo para cima”, que se limitava a responder aos estímulos para sobreviver.
Para ele, esta desatenção é fomentada em detrimento da concentração e do pensamento profundo, responsáveis pelos processos criativos. Carr cita o chamado “maximalismo conectivo” que prega que ‘quanto mais conectado, melhor’, máxima da qual podemos derivar que quanto menos conectado, pior. Mas quais seriam as consequências dessa ideologia? Impossível não citarmos a máxima macluhaniana: “o meio é a mensagem”, que indica que são os meios os grandes transformadores da humanidade, não os conteúdos que neles circulam.
Entretanto, apesar do tom um tanto crítico dos últimos parágrafos, agora estou diante de outra bancada de trabalho. Muito asseada e confortável, quando comparada à poeira constante e ao calor operário da oficina – mas tão útil quanto (ou quase). Estou diante da tela.
Na verdade não é apenas uma tela. Trata-se de um super-telefone, uma biblioteca, uma máquina de escrever super dotada, uma ferramenta intelectual (Carr, 2011) que amplia meus poderes comunicativos e transforma meu modo de operar intelectualmente e moralmente, como qualquer outra ferramenta já criada.
Apesar de não estar mais assobiando, o trabalho da oficina e suas emanações sensoriais, intelectuais e emocionais seguem comigo. É diante do computador, esta ferramenta tão insípida, amorfa, inodora, incolor, que posso de alguma maneira consolidar (e desdobrar) o que houve uns minutos atrás, coberto de serragem perfumada e suor.

(trecho retirado da palestra proferida no 18º COLE, 2014. Leitura e Literatura na Internet:
Criatividade, Interatividade e leitura: autoria e poética visual para a construção de conhecimentos. Prof. Me SeiZo Soares)

Sobre SeiZo

Administrador, comunicador, educador, artista visual e escritor SeiZo Soares 43, Administrador de empresas (FGV-SP), especialista em gestão educacional, mestre em Educação (PUC-Campinas), docente no ensino superior nas áreas de marketing, comunicação e educação. Escritor especializado em roteirização audiovisual para organizações, ghost writing e presença online. Artista com obras publicadas em música, literatura, fotografia e escultura – esta última com exposições internacionais realizadas, e marca própria no segmento de design e arte joalheria contemporânea (Joya Barcelona 2013 e 2014; Beijing International Art Jewelry Exhibition 2013).
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Uma resposta a Criatividade, Interatividade e leitura: autoria e poética visual para a construção de conhecimentos. (Trecho)

  1. O texto nos situa nessa nova cultura da conectividade e nos alerta de suas implicações. Trata-se de uma valiosa contribuição para as discussões sobre conhecimento, informação e comunicação. Muito Bom!

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