A arte de contar histórias na interatividade: criando significados, aprofundando relacionamentos.

O Broche viajante no Gughenheim de Bilbao. 2013

O Broche viajante no Gughenheim de Bilbao. 2013

Por Prof. SeiZo Soares.

O termo storytelling tem sido utilizado para designar o trabalho criativo de se apresentar ideias, marcas e organizações como parte de uma história ou narrativa. O cinema vem fazendo isso há muito tempo. Quem não se lembra do Aston Martin de James Bond ou da bola Wilson do Náufrago?

Entretanto, contar histórias é muito mais que a maneira através da qual a humanidade transmite seus valores e conhecimentos geração após geração. Elas servem essencialmente como um instrumento para equilibrar o que há no interior do ser humano e o ambiente em que ele vive. As histórias funcionam hora como mecanismo de catarse, hora como canal de conhecimento vital para compreender nossos próprios medos, anseios e dúvidas. As histórias surgem praticamente junto com a linguagem, dezenas de milhares de anos atrás. Da arte rupestre aos mitos gregos, à Star Wars, nossas histórias permanecem ao longo do tempo, como uma espécie de cimento social, regulando as contradições entre o que sentimos poder e o que vivemos. O espectador se vê na história, vive a aventura do herói e percebe mais de si mesmo.

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Em nosso mundo hiperconectado, as plataformas digitais das redes sociais e seus conteúdos são as novas tecnologias onde as histórias são contadas.

A arte de contar histórias é uma qualidade que historicamente é subestimada quando surge uma nova técnica ou tecnologia. Os enredos dos primeiros filmes, por exemplo, eram bem mais simples e rudimentares que os dos livros escritos na época. Hoje o cinema exibe exuberância e complexidade em seus enredos.
A internet e suas redes sociais abriram outras e novas possibilidades para se contar histórias. A não-linearidade promovida pelo hiperlink trouxe a possibilidade para o leitor montar sua história da maneira que escolhesse, clicando em links e visualizando conteúdos conforme seu desejo, interferindo também como co-autor das histórias que lê na interatividade. É assim que navegamos na net, seguindo um percurso próprio, nem sempre linear e muitas vezes caótico. Entramos e saímos, clicamos aqui e ali, nos distraímos com facilidade. Afinal, os estímulos são tantos e tão atraentes.
Neste universo em que a “cacofonia de estímulos” reina, como criar e oferecer conteúdo de valor que converta-se em capital para as pessoas e organizações?
Construir um enredo para sua marca, ideia, organização ou para si mesmo auxilia na criação de laços mais fortes com seus públicos, promovendo um relacionamento mais duradouro baseado em valores mais estáveis e humanos (desde que as histórias sejam verdadeiras e originais).
A empatia gerada por uma boa história representa um grande ganho para o capital social no ambiente virtual. Por meio da contextualização significativa de conteúdos propiciada pelo storytelling é possível estabelecer e favorecer a confiabilidade e consequentemente facilitar trocas e negócios.
Porém, faço-lhe uma pergunta, caro leitor: se hoje o leitor é também autor e o autor não escreve sozinho suas histórias, Quem é o autor no contexto da interatividade? Ele ainda existe como antes? Esta pergunta pode ser muitas vezes difícil de ser respondida. É uma questão amplamente discutida nos círculos de escritores, artistas e estudiosos. Este tema me levou até Júlio Plaza (2003) e seu trabalho que manifesta o estado da arte dos conceitos relacionados à interatividade e a autoria, ao que recorro para construir esta análise.
A interatividade – promovida essencialmente pelo chamado hipertexto – trouxe novas ideias e perguntas sobre as relações entre autor, obra e receptor (leitor).
Em seu estudo, Julio Plaza se refere a Ted Nelson, considerado o criador do termo hipertexto, e conceitua o mesmo como sendo “um conjunto de escritas associadas, não sequenciais, interconectadas, com possibilidades de leitura em várias direções. Aqui o processo de leitura é designado pela metáfora ‘navegação’” (Ted Nelson in Julio Plaza). Abertura, complexidade, imprevisibilidade e multiplicidade são alguns aspectos a ele relacionados. O leitor pode assim, interagir de forma subjetiva e criar sua própria rede de associações, favorecendo o pensamento multidisciplinar.
Se considerarmos a ideia de que a mente humana trabalha por associações (Vannevar Bush), o hipertexto possibilita que o leitor siga seu fluxo natural de associações (por contiguidade e similaridade) possibilitando o pensamento complexo que não pode ser expresso por meio de estruturas fechadas e lineares.
Por outro lado, a interatividade deve ser vista como uma categoria de comunicação, “um modo singular de comércio de subjetividades” (Júlio Plaza , 2003) delimitado por fatores técnicos de forma, função e endereçamento.
“O principal problema da leitura, agora transferido para as questões da interatividade, é o da qualidade da resposta, qualidade da significação, ou seja, qualidade do interpretante… todo leitor escolhe e é escolhido… neste sentido, o leitor interativo deve escolher as melhores opções para manifestar-se, como leitor criativo, ou não” Plaza, 2003.
Todo texto é recriado pelo leitor. Entretanto, cabe notar que há diferenças entre escrita (produção de sentido) e a leitura (apropriação de sentido). A escrita é o encadeamento de leituras, enquanto a leitura é a reescrita para si mesmo.
A interatividade digital permite que essa reescrita possa ser acrescida à obra e ao processo criativo do autor. Plaza busca em Popper duas condições para que o indivíduo ou o grupo seja integrado ao processo criativo do autor: a inventividade e a responsabilidade artística, ou seja, a capacidade e o papel dessa participação no processo criativo.
Não é surpresa que – em um sistema de relações sociais e comunicacionais onde se transformam as dinâmicas de consumo e produção, e que convida à co-criações anônimas de tantas naturezas – a figura do autor fosse colocada em um segundo plano. Há certa utopia democrática multimidiática e um apelo ideológico ao coletivo, à cooperação criativa.
Apesar do grande coro crente no fim do autor em benefício de uma produção plural e coletiva, Plaza aponta o trabalho de Antonio Silvério que desorganiza esse raciocínio, partindo dos conceitos barthesianos de escritor e escrevente:
“O Autor existe, diz ele. Sempre. Mesmo as criações coletivas são feitas por criadores individuais, conhecidos ou não. Trata-se, portanto, da “função-autor”. O autor é aquele que se fecha no “como escrever”, confundindo seu ser com o ser da palavra, perdendo “sua própria estrutura e a do mundo na estrutura da palavra” e se realizando na palavra; como esperar que ele venha a ser reduzir ao “anonimato de um murmúrio”? Aquele que faz da linguagem uma práxis não tem poder para renunciar à sua marca, nem será abolido por simples anseios ou patrulhamentos ideológicos. Quem se reduz ao “anonimato de um murmúrio” é, por definição, o “escrevente”.” (Julio Plaza, 2003).
Assim, “o autor providencia o espaço, a cartografia, mas cabe ao usuário traçar o seu percurso” e este percurso depende da inventividade e da responsabilidade artística desse usuário.
Acredito que a obra autoral publicada nos meios de interatividade age como um gatilho que detona respostas em um determinado grupo de pessoas movidas pelo desejo de validar, participar, refletir e produzir (sim) suas próprias derivações criativas a partir da proposta – a “cartografia” – desenhada pelo autor detonador.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CAMPBELL, Joseph. O Poder do Mito, ed. Palas Athena, 1990.
PLAZA Julio. , 2003 Arte e interatividade: autor-obra-recepção. ARS (São Paulo) vol.1 no. dois, São Paulo, Dec. 2003.
SOARES, Suely. Arquitetura da Identidade. ed. Cortez, 2001

Sobre SeiZo

Administrador, comunicador, educador, artista visual e escritor SeiZo Soares 43, Administrador de empresas (FGV-SP), especialista em gestão educacional, mestre em Educação (PUC-Campinas), docente no ensino superior nas áreas de marketing, comunicação e educação. Escritor especializado em roteirização audiovisual para organizações, ghost writing e presença online. Artista com obras publicadas em música, literatura, fotografia e escultura – esta última com exposições internacionais realizadas, e marca própria no segmento de design e arte joalheria contemporânea (Joya Barcelona 2013 e 2014; Beijing International Art Jewelry Exhibition 2013).
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