O Rei e a Omelete

O REI E A OMELETE – Walter Benjaminbird_egg
(In Suplemento Especial da Folha de S.Paulo, comemoração dos 50 anos/criação da USP/1984).

*

Era uma vez um rei que tinha todos os poderes e tesouros da Terra, mas apesar disso não se sentia feliz e cada ano ficava mais melancólico.
Um dia, ele chamou o seu cozinheiro preferido e disse:
“ Você tem cozinhado muito bem para mim e tem trazido para a minha mesa as melhores iguarias, de modo que eu lhe sou agradecido. Agora, porém, quero que você me dê uma última prova de sua arte. Você deve me preparar uma omelete de amoras, igual aquela que eu comi há cinquenta anos, na infância.
Naquele tempo, meu pai tinha perdido a guerra para o reino vizinho e nós precisamos fugir; viajamos dia e noite através da floresta, onde afinal acabamos nos perdendo.
Estávamos famintos e cansadíssimos, quando chegamos a uma cabana onde morava uma velhinha, que nos acolheu generosamente.
Ela preparou para nós uma omelete de amoras.
Quando comi, fiquei maravilhado: a omelete era deliciosa e me trouxe novas esperanças ao coração.
Na época, eu era criança, não dei importância à coisa.
Mais tarde, já no trono, lembrei-me da velhinha e mandei procurá-la, vasculhei todo o reino, porém não foi possível localizá-la.
Agora, quero que você me atenda esse desejo: faça uma omelete de amoras igual à dela.
Se você conseguir, eu lhe darei ouro e o designarei meu herdeiro, meu sucessor no trono.
Se você não conseguir, entretanto, mandarei matá-lo!
Então, o cozinheiro falou:
Senhor pode chamar imediatamente o carrasco.
É claro que eu conheço todos os segredos da preparação de uma omelete de amoras, sei empregar todos os temperos.
Conheço as palavras mágicas que devem ser pronunciadas enquanto os ovos são batidos e a melhor técnica de batê-los. Mas isso não me impedirá de ser executado, porque a minha omelete jamais será igual à da velhinha.
Ela não terá os condimentos que lhe deixaram senhor, a impressão inesquecível.
Ela não terá o sabor picante do perigo, a emoção da fuga, não será comida com o sentido alerta do perseguido, não terá a doçura inesperada da hospitalidade calorosa e do ansiado repouso, enfim conseguido.
Não terá o sabor do presente estranho e do futuro incerto.
Assim falou o cozinheiro.
O rei ficou calado, durante algum tempo.
Não muito mais tarde, consta que lhe deu muitos presentes, tornou-o um homem rico e despediu-o do serviço real.

Sobre SeiZo

Administrador, comunicador, educador, artista visual e escritor SeiZo Soares 43, Administrador de empresas (FGV-SP), especialista em gestão educacional, mestre em Educação (PUC-Campinas), docente no ensino superior nas áreas de marketing, comunicação e educação. Escritor especializado em roteirização audiovisual para organizações, ghost writing e presença online. Artista com obras publicadas em música, literatura, fotografia e escultura – esta última com exposições internacionais realizadas, e marca própria no segmento de design e arte joalheria contemporânea (Joya Barcelona 2013 e 2014; Beijing International Art Jewelry Exhibition 2013).
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